Misérias e glórias do xadrez (12)  escrito em terça 24 junho 2008 23:25

Misérias e glórias do xadrez (12)

O espírito de Spassky durante o match com Fischer pode ser bem aquilatado pela quinta partida (equivalente à sexta rodada, pois Fischer faltou à segunda). O norte-americano, que, quando jogava com as brancas, considerava um “princípio” começar pelo avanço do peão do rei, pela primeira vez na vida preferiu o chamado “gambito da dama” (a frase exata de Fischer, em seu livro de 1968, “My 60 Memorable Games”, é: “eu jamais comecei uma partida com o peão da dama – por princípio”).

Era um lance psicológico - no entanto, não pouco arriscado. Spassky, após seu match de 1969 com Petrosian, era considerado o maior conhecedor no mundo de uma das variantes dessa linha, a variante Tartakower (alguns enxadristas a chamam “sistema T.M.B.”, sigla que vem do nome de seus principais desenvolvedores: Tartakower, Makogonov e Bondarevsky). Mais do que isso, a reputação de Spassky era a de jamais haver perdido um único jogo com essa linha (e, até onde pudemos verificar, essa reputação era justificada).

Por outro lado, em 1968, em seu livro “My 60 Memorables Games”, comentando sua partida com o iugoslavo Bertok (ed. cit., pág. 207), Fischer havia publicado uma análise dessa linha - e a seguiu, na partida de 1972 com Spassky.

Mas, depois de entrar em sua linha favorita, o campeão escolheu um caminho já refutado, dois anos antes, por seu compatriota Semyon Furman, em um famoso jogo pelo campeonato soviético. Era impossível que Spassky não conhecesse essa partida e, mais do que isso, não conhecesse o estudo que Furman publicou na URSS sobre o tema. Praticamente todas as revistas soviéticas de xadrez haviam registrado a partida e a análise de Furman.

Porém, pior ainda, o oponente que Furman derrotou na partida de 1970 foi Geller, que em Reikjavik era, exatamente, o principal analista de Spassky. E, naquela altura dos acontecimentos, Geller também já havia analisado minuciosamente essa partida, em especial seu erro na 14ª jogada das negras – e descoberto uma alternativa, que aplicou com sucesso no ano seguinte, contra o holandês Jan Timman.

Mas Spassky, no entanto, repetiu, em 1972, o erro de Geller em 1970, como se tudo isso não existisse. E, frisamos mais uma vez, numa linha que era sua favorita – portanto, presumivelmente, sobretudo em se tratando de um jogador de seu nível, deveria estar interessado nas novidades a respeito dela, ainda mais quando as análises foram tão divulgadas.

Evidentemente, Spassky sabia de tudo isso. Sua derrota nesta partida não foi por ignorância, mas pelo estado psicológico em que se encontrava – e já na quinta partida, de um match programado para 24.

O ERRO

No entanto, o match não havia começado mal para Spassky. Na primeira partida, um erro de Fischer, tomando um peão desprotegido, lhe custou uma peça (um bispo) e dera a vitória ao campeão. Há muita coisa escrita sobre esse erro, aparentemente um erro crasso; a melhor análise, em nossa opinião, é a do próprio Fischer: segundo ele, simplesmente calculou errado, achando que o bispo poderia ser salvo depois de tomar o peão. O importante, aqui, é o motivo desse erro: Fischer, muitas vezes, tinha dificuldade em resistir a uma aparente vantagem material. Não por acaso, jogadores dispostos a sacrificar material (isto é, peões e peças) para obter uma posição melhor, ou um ataque, sempre foram, para ele, seus oponentes mais difíceis. O exemplo mais evidente é, naturalmente, Mikhail Tahl.

O que é revelador de um efeito da insegurança de Fischer. Por isso seu “calcanhar de Aquiles” eram as posições incertas. Ele necessitava estar seguro das seqüências e posições que surgiriam. Avaliações gerais não eram suficientes para ele. Porém, tanto no xadrez quanto em qualquer outro campo da vida, muitas vezes é necessário tomar decisões sem que se esteja completamente seguro da sua correção, e às vezes até pouco seguro. Era nesses momentos que Fischer tendia a fracassar – inclusive, como nessa primeira partida do match de 1972, tendia a cometer o que os americanos chamam de “blunder”, isto é, um erro crasso.

No entanto, muitos diriam que a posição em que ele cometeu esse erro na primeira partida não era incerta, mas uma posição empatada. Pelo menos quando jogou – e errou – Fischer, provavelmente, não tinha essa avaliação. Mas, vamos admiti-la, porque, do ponto de vista objetivo, ela é verdadeira. Aqui está outra debilidade de Fischer: a dificuldade em se conformar com situações em que não é possível ganhar. Ele não tinha problemas em empatar uma partida perdida – v. seus comentários à partida com Walther, em “My 60 Memorable Games”. Mas, não era tranqüilo diante de posições realmente empatadas. E, aí, ao forçar uma posição que não podia ganhar, a possibilidade de erro aumentava, como notou o mestre cubano Eleazar Jimenez-Zerquera, na análise de sua partida com Fischer na 15ª rodada do Memorial Capablanca de 1965.

É provável que Spassky fosse o jogador do mundo em melhores condições, do ponto de vista puramente enxadrístico, para colocar Fischer diante de situações do tipo das que mencionamos, em especial as do primeiro tipo. O problema é que não existe o “puramente enxadrístico”. Pelo menos não em jogos entre seres humanos.

Para vencer Fischer, Spassky teria que ser outro Spassky. Não outro enxadrista, mas outra pessoa. Diante de um oponente convicto – na época – de que era necessário “bater os russos pela América”, Spassky não estava convencido de que o lado em que estava, não o enxadrístico, mas o político, era o melhor. Isto, para dizer o mínimo. A impressão que ele passava – e ainda passa – é que achava o lado em que estava, pior do que o do seu oponente.

Esse Match disputado entre Spassky e Fisher foi lendário na história do xadrez; achei interessante esse artigo porque aponta para as manifestações "extra-tabuleiro" e suas implicações no jogo mesmo de dois grandes gênios do Xadrez mundial! Sem contar que ainda traz um pequeno esboço da personalidade do sempre controvertido Bobb Fisher. Confesso que me sinto melhor sabendo que mesmo um enxadrista da envergadura do Fisher tem suas deficiências!

O artigo foi extraído em   http://www.ajedrez.com.py/13/index.php?option=com_content&task=view&id=1177&Itemid=49

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